quinta-feira, 21 de abril de 2011

E-mail que me foi enviado por Letícia, amiga do Mário

Queridos colegas e alunos,


         Quero agradecer a todos que mandaram mensagens para mim, para o grupo Discurso e Gramática e  para a Faculdade de Letras da UFRJ de modo geral, acerca do falecimento do nosso querido Mário.
         Quero dizer que tive o grande privilégio de participar com o Mário do mesmo projeto, da mesma sala de estudos e de dividir vários cursos com ele por 15 anos. Não preciso dizer que ele era um linguista brilhante e um professor maravilhoso. Mais do que isso, para mim ele era um grande amigo, um irmão.
         Estou muito triste, porque não imaginava que ele iria embora assim tão cedo, tão rápido. É uma grande perda para a Linguística e para a Educação do Brasil. Mário, além das inúmeras contribuições para a Ciência, também contribuiu, e bem, para formar um grande número de professores, porque ele começou a dar aula em diversas Faculdades de Letras logo que se formou, aos 22 ou 23 anos. Na UFRJ, como Professor e Pesquisador, ele começou em 1996 e teve uma carreira brilhante. E ele fazia tudo com tanta simplicidade, com tanto carinho, com tanta alegria que contagiava todo mundo. Gostava de todo mundo, respeitava todo mundo e cuidava de todo mundo. O mesmo respeito que ele tinha pelo trabalho, pela Ciência, ele tinha para com os colegas, alunos e funcionários. Não sabia dizer não e tinha sempre pressa para fazer seu trabalho e ao mesmo tempo tudo tinha que ser perfeito. Por isso sempre tínhamos a impressão de que ele estava correndo. Parecia que tinha pressa, pois o tempo dele seria curto. E fez tanta coisa! Fez a primeira tese sobre gramaticalização no Brasil, escreveu com o grupo o primeiro livro sobre o assunto no Brasil, divulgou o funcionalismo pelo Brasil, ensinou vários jovens a entender a Linguística através do nosso Manual de Linguística e de outros livros que escreveu e organizou. Escreveu inúmeros artigos com contribuições inéditas sobre a língua portuguesa. Divulgou inúmeras pesquisas realizadas no Brasil em textos internacionais. Somente em 2011 sairão vários trabalhos importantes escritos por ele.
         Mas tudo isso vocês já sabem. Eu nem precisava escrever. O que talvez alguns de vocês não saibam é que ele era extremamente simples (ouço o coro dos alunos: “Mário informal: calça jeans, camiseta branca e tênis All Star; Mário formal: calça jeans, camiseta branca, tênis All Star e blazer bege). E a simplicidade não estava somente na  aparência, estava em tudo. Além disso, ele era muito, muito generoso. Com aquele jeitinho de menino, ele não pedia proteção, ele era muito protetor. Protegia os alunos e protegia os colegas.
         Por isso, quando um amigo me falou ao telefone que tinha acabado, que não havia mais volta, fiquei desesperada. Não podia imaginar a Faculdade de Letras sem o Mário, não podia imaginar o meu grupo sem o seu líder e não podia imaginar que tinha perdido meu amigo e irmão. Ainda está difícil acreditar que ele não estará mais na sala H314 organizando tudo, molhando a planta, passando antivírus no computador (já tinha virado mania!) e estudando. Também vai ser difícil imaginar que o telefone não vai mais tocar para discutirmos os detalhes (e como gostava de destalhes!) sobre nossos textos, sobre os conceitos, sobre nossos eventos. Não vou mas ouvir no final: “Falô, Maura”.
         Mas não queria passar tristeza, pois consegui sentir um grande conforto no final do enterro dele. E queria passar este conforto para vocês. No final, meus alunos e Karen me chamaram para um grande abraço e para dizer que estamos unidos, que todos vão me ajudar a conduzir o Projeto Discurso e Gramática da UFRJ. Nisso surge a mãezinha dele com ar de brincadeira e diz que queria entrar no círculo. Ela disse que tinha chegado muito, muito triste ao velório, mas que saia do enterro mais feliz, porque tinha visto o nosso grupo, tinha visto que o trabalho dele iria continuar. Tínhamos visto como ela estava no velório e a diferença no final. Realmente ela viu, pela nossa dor e pelos inúmeros alunos, que o esforço dele não foi em vão e que tudo vai continuar através da obra dele e de tudo o que ele nos passou como exemplo de pesquisador e de gente, de gente muito boa.
         Ela no final disse: “Sucesso e que aproveitem bastante a vida, pois meu filho aproveitou pouco”. Saí mais aliviada dali. Uma mãe sofrida conseguiu ver que tudo não foi em vão e saiu mais feliz do cemitério por ter falado com os alunos do Mário e comigo. Saí mais feliz por ter ouvido as suas palavras mágicas e seu tom de voz. Antes disso, ainda no velório, eu já tinha agradecido a ela por ter ajudado a trazer a este mundo alguém tão especial quanto o Mário e de tê-lo educado tão bem. Tão especial que me fez crer até o final que estava tudo indo bem. Em nenhum momento que falei com ele, seja pelo telefone seja no hospital no mês passado, ele me passou tristeza ou me deixou perceber que o tratamento não estava dando certo. Por isso, eu estava acreditando em cura o tempo todo.
 Então é isso, vamos aproveitar as palavras da mãe do Mário: Sucesso para todos e que aproveitem bastante a vida. Ainda acrescento: tudo isso com uma pitada da generosidade e simplicidade do Mário. E temos de lembrar que, além de todas as qualidades, ele era muito engraçado. Quem conviveu com ele tem na mente as inúmeras cenas e frases engraçadíssimas. Fomos muito felizes com ele, aprendemos e rimos demais com ele.
E ele? Ele foi muito feliz e curtiu a vida do jeito que escolheu: com amor, música, livros e muitos e muitos alunos e amigos.

Falô, Mário.

Um abraço,

Maura

Um comentário:

Unknown disse...

Na verdade este email foi enviado pela amiga "Lilian" que também é professora da UFRJ. Lilian recebeu esta email de Maria Maura e me encaminhou dizendo que eu repassasse para a família e para os amigos do Mariozinho, pois tinha certeza que eles gostariam de saber como ele era querido na universidade.

Letícia ("Lets")