Um homem e dois rios...
Como justa homenagem, começo citando palavras do prof. Mário Martelotta: “O tempo é uma passarela”.
E eu diria que esta passarela, suspensa no vão da existência, ora balança ao sabor das aragens das manhãs, ora enfrenta as torrentes caudalosas das noites.
Nesta passarela, a marcha das horas é incessante e implacável.
Nada escapa à forte correnteza dos minutos e dos segundos. Somos todos levados, alegres ou tristes.
E o tempo da vida não recua, não para, não espera, não se atrasa.
E diante do tempo somos todos iguais, pois o tempo não discrimina nem privilegia.
Somente Deus está acima do tempo, porque Deus é quem tece o próprio tempo.
O ontem já foi tecido e vivido. O hoje é o amanhã vivido e tecido agora.
E a morte não é o fim da linha no tecido do tempo.
Pois, durante todo o tempo estamos morrendo, e somente deixamos de morrer quando, na verdade, morremos.
Quando vivos, temos pressa de acompanhar o tempo, de não perder tempo.
Quando mortos, saímos da linha do tempo e já não somos mais atingidos por ele.
É doloroso aceitar... que urgentemente já se vive, que urgentemente já se morre.
Todavia, o tempo não se esgota com um adeus...
É que o prof. Mário continua atravessando sua passarela. E sua história continuará visitando nossa memória.
Mas, quem era realmente o prof. Mário Eduardo Martelotta?
No cenário das pesquisas linguísticas, ele era biograficamente Martelotta. O pesquisador incansável e criterioso. Lido e reconhecido.
No palco das salas de aula, na interação mansa e sorridente com os alunos, eis o professor Mário, competente e solícito. Amado e respeitado.
Porém, para os amigos e colegas, ele era simplesmente Mário. Gentil e sincero. Atencioso e entusiasta.
Nos ambientes de encontros coloquiais, ele era informalmente Mário: calça jeans, camiseta branca e tênis All Star.
Aqui cito palavras de sua grande amiga e colega de estudos e pesquisas, a profa. Maura: “E ele fazia tudo com tanta simplicidade, com tanto carinho, com tanta alegria que contagiava todo mundo. Gostava de todo mundo, respeitava todo mundo e cuidava de todo mundo. O mesmo respeito que ele tinha pelo trabalho, pela Ciência, ele tinha para com os colegas, alunos e funcionários. Não sabia dizer não e tinha sempre pressa para fazer seu trabalho e ao mesmo tempo tudo tinha que ser perfeito. Por isso sempre tínhamos a impressão de que ele estava correndo. Parecia que tinha pressa, pois o tempo dele seria curto. E fez tanta coisa!”
Prof. Mário, ou saudosamente Mário. Ele amava a vida. Vivia como um jovem. Morreu como um jovem. Há Deus, descanse por méritos e por justiça. Há Deus, tenha o sono dos justos.
Hoje, quando a saudade não é mais a lágrima, porque pouco diz, mas sim a vontade de sentir e falar de você, sabemos quão penoso é defrontar a realidade. Esta ausência a nos arrastar e a nos dominar, mas também que nos comunica sinalizando a força do espírito a pairar sobre nós, muito nos ensina, muito nos aproxima e muito nos fortalece.
Guardamos o melhor de você no nosso coração, como uma verdadeira homenagem.
Por isso, hoje não trazemos lágrimas, mas as nossas saudades e um desejo forte e constante de abraçar você no final da passarela...
Seria a morte o fim da sabedoria colhida através dos tempos? Seria a morte o fim da bondade que floresceu em seu coração pelas lutas e conquistas? Não, a morte não tem mais espaço em sua passarela...
Uma passarela que liga dois rios, uma passarela que aproxima duas cidades, uma passarela que une corações que ainda choram...
Mário, Mário, o sussurro de dois rios nos faz escutar... “Há Deus! A Deus, Adeus!”
E respondemos com as nossas preces e os nossos aplausos.
Texto produzido e lido por José da Luz (Zé) (professor – UFRN)
na missa de 7º dia na capela do campus
Natal (RN), 20-04-2011.
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